NOTÍCIAS

As UPPs e a periferia sempre esquecida

Cristiano Camerman*
Coordenador Geral da ONG Campo

Em novembro de 2010 publiquei no blog do Campo (Centro de Assessoria ao Movimento Popular) um pequeno artigo intitulado “As UPPs são municipais ou estaduais?”. Na ocasião, eu iniciava o texto contando que mais ou menos dois anos antes já conversava muito sobre as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e a periferia. A ideia das UPPs sem dúvida é muito boa e quando perguntava ao pessoal da Rocinha, que conheço tanto e onde morei certa época da minha vida, estavam todos encantados com as obras do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento e com as Unidades de Polícia Pacificadora, embora por lá ainda não tivesse sido instalada nenhuma UPP. E assim permanece em maio de 2012.

Mas como o Campo já fez há muitos anos a opção de trabalhar com a periferia do Rio, com grupos comunitários, e mais particularmente na enorme periferia de São Gonçalo, sempre disse que algum dia essa estratégia de ocupação traçada pelo governo estadual seria um grande problema não só para São Gonçalo, mas também para a Baixada Fluminense, zona oeste do Rio e toda periferia. Quando? Não sabíamos. Infelizmente o que intuía e escrevi se concretizou. Na Baixada e em São Gonçalo (e agora até em Niterói) aumentou muito a violência, basta acompanhar o noticiário. As UPPs instaladas na zona sul e zona norte do Rio expulsaram o pessoal do tráfico. Para onde iriam? Não seria possível dar a cada um deles uma Bolsa Família, portanto, eles teriam que sobreviver de alguma maneira e em algum lugar.

Ao governador interessam mais as zonas sul e norte da cidade do Rio. Mas ele é governador – reeleito democraticamente e, portanto, merecedor de todo respeito – não é prefeito da zona sul e norte! As periferias, áreas reconhecidamente mais carentes, não têm acesso as UPPs. Se ele tivesse pensado nas UPPs na cidade do Rio (um pouco menos) e também na periferia (um pouco mais), talvez os traficantes da zona sul e norte não teriam migrado tão rápido para a periferia. Sabíamos que só as UPPs não resolveriam o problema, mas se elas tivessem seguido outra logística quem sabe não estaríamos nessa atual situação.

Estamos cientes da Copa e das Olimpíadas, cada vez mais próximas, e da necessidade de deixar os trajetos e locais dos jogos seguros. Mas não podiam ter lembrado também das comunidades mais carentes? Mesmo aquelas distantes dos aparelhos esportivos como Palmeiras, em São Gonçalo?

O que percebo é que ainda estamos pensando somente na cidade do Rio de Janeiro e esquecendo da periferia. Claro que não é o Campo – que esse ano completa 25 anos de atividades ao lado dos grupos comunitários – que irá resolver, nem temos essa pretensão. Queremos apenas nos manifestar modestamente e provocar a reflexão, em um ano de eleições municipais, sobre algo que as comunidades da periferia estão sentindo na pele nos últimos tempos.

Artigo de opinião enviado como colaboração ao Canal Ibase. Para enviar o seu, escreva-nos na sessão “Envie o seu texto“.


Tags: , , , ,

OPINE

Comentários (2)

  1. Leone Siciliani  

    | 23 de maio de 2012

    These are impressive articles. Keep up the noble be successful.
    http://www.KneeNeckBackPain.com/



  2. Pingback Favela é cidade! | Ibase – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas  

    | 23 de novembro de 2012

    [...] [...]



Os comentários estão fechados.