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Lutas globais: hora da fase ‘pós-acampamento’

Natália Mazotte
do Canal Ibase

Indignados, movimentos sociais e culturais tiveram neste 12 de maio mais um dia de protestos em vários pontos do mundo. O 12M (em referência à data de 12 de maio) teve a sua versão no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras. Ivana Bentes é uma das participantes do movimento nacional. Diretora da Escola de Comunicação da UFRJ, Ivana é ativista, referência intelectual desses novos movimentos no Brasil e estudiosa do tema. Em entrevista ao Canal Ibase, ela discute o fenômeno. Confira a seguir:

Qual a sua participação nesse movimento relacionado ao 12M?
Eu acompanhei a ocupação que teve na Cinelândia (Centro do Rio de Janeiro) no ano passado, fizemos uma série de debates no MAM (Museu de Arte Moderna, no Rio), durante o Festival de Cultura Digital, com a participação do pessoal do Ocupa Rio [versão carioca do movimento Occupy Wall Street, inspirado nos protestos árabes pela democracia, que reuniu, em 2011, em Nova York milhares de pessoas insatisfeitas com  capitalismo; o Ocupa Rio chegou a contar com 500 manifestantes] e do Ocupa Salvador. Discutimos a situação do Brasil nesse contexto, e as lutas locais diante das globais. Depois também participei do Conexões Globais, evento que recebeu o Javier Toret, do 12M espanhol, e o ativista Pablo de Soto, muito ligado a todo esse contexto. As marchas da liberdade que vêm acontecendo em todo o Brasil também têm uma ligação muito próxima com esses movimentos.

Panfleto eletrônico de divulgação para os atos do 12M no Rio de Janeiro.

Como você interpreta essa onda de “indignados” pelo mundo?
Estamos no meio de um momento de transição na democracia representativa, nas instituições mais tradicionais, como as universidades e os partidos. Há um certo anseio por novos modelos e uma percepção geral, mais violenta nos países que estão em crise, de que é preciso pensar novas ferramentas e experiências de política e de mundo. O que eu acho muito interessante no Occupy é que ele desenvolveu novas ferramentas políticas, novos modos de organizar multidões, de conectá-las afetivamente com temas políticos, de mobilizar globalmente, isso tudo é muito singular. A ideia de juventude global, acampamento global, lutas globais explode de uma maneira muito significativa. Esses novos movimentos são decisivos. Eles retomam o caráter público das cidades com as ocupações, a visão de que esses espaços não têm donos. É um despertar que vem de movimentos heterogêneos, e não dos movimentos políticos tradicionais. São várias pautas, a dos ciclistas em São Paulo, a da liberalização das drogas, a das moradias adequadas e fim das remoções. Não são apenas movimentos políticos, são movimentos também culturais, comportamentais, e isso às vezes causa um certo estranhamento por parte da militância mais tradicional.

Quais são os principais desafios para esses movimentos?
Apesar das bandeiras locais serem importantes, há o desafio de esses movimentos não ficarem fragmentados, de superarem a fragilidade da sua própria organização e de propagar ainda mais as experiências. Precisamos pensar propostas concretas, ultrapassar o nível da indignação no estado puro, entrar em um segundo momento, pós-acampamentos. Estamos em um momento meta-occupy, de digerir a experiência, olhar para o que aconteceu e pensar o desafio de transformar singularidades em comum.

De que maneiro o contexto atual da economia mundial se relaciona com esses movimentos?
Hoje fica muito notório como a pobreza e a escassez são construções políticas e mercadológicas. As pessoas estão percebendo que ingressamos na economia da abundância com o desenvolvimento tecnológico atual, na qual seria possível alimentar o planeta inteiro, dar educação a todos. Quando todo mundo percebe que os problemas são fabricados por um terrorismo do sistema financeiro, capaz de quebrar um país para o seu próprio benefício e tirar gente das suas casas em nome do lucro, cria-se esse sentimento de urgência, de que é necessário fazer algo e buscar novos caminhos.

Qual a importância da internet nesse processo?
Ela é parte da revolução. Há toda uma relação da rede com as ruas. Os movimentos hoje são territoriais e ao mesmo tempo se utilizam de ferramentas virtuais. Hoje o que vemos nos territórios são os efeitos das experiências das redes sociais. Vemos a força da ocupação dos corpos nos espaços públicos e nos ambientes virtuais. As dualidades estão em curto-circuito, e novas referências estão surgindo. As formas de atuação e os discursos estão se reinventando. Saímos daqueles discursos apocalípticos ou celebratórios da internet, para vermos que a tecnologia pode ser o que quisermos, basta nos apropriarmos dela.

Como os que não estão na rede participam desses movimentos?
Os moradores de rua, os desconectados, continuam lutando com o seu próprio corpo e seu próprio incômodo social. Eles já ocupam há muito tempo, em frente aos condomínios, aos shoppings. Eles já lutam com suas presenças. O processo de luta também é desigual, não podemos achar que ele é homogêneo, mas é necessário cobrar e debater políticas públicas de acesso à tecnologia. Não podemos ver como bens comuns apenas a água, terra, semente, mas também linguagens e tecnologias. A inclusão do mercado já foi feita, quem pode pagar já está incluído. Resta pensar essa inclusão pública, pensada como política pública.

 


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Comentários (3)

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