Não foi apenas sobre vinte centavos. Embora o estopim das manifestações que tomaram conta do Brasil em 2013 tenha sido o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo e no Rio de Janeiro, o que se viu nas ruas foi a materialização de uma indignação muito mais profunda. A chama acesa pelo Movimento Passe Livre (MPL) revelou um descontentamento latente com um modelo de cidade que, sistematicamente, exclui seus cidadãos, especialmente os mais pobres.

Para quem acompanhou de perto as manifestações que aconteceram no Rio de Janeiro e em São Paulo, uma coisa ficou clara: a indignação não é mais apenas sobre os R$0,20 de aumento. Os brasileiros que ocuparam as ruas nos últimos dias estão motivados pela crescente privação do seu direito à cidade, que foi gradativamente reduzido através de impostos, remoções de comunidades, violência gratuita das forças policiais e aumentos anuais nas tarifas do transporte público.
O grito que veio das periferias
Em junho de 2013, o que começou como uma série de atos organizados pelo MPL contra o aumento de R3,00 3,20 nas passagens de ônibus em São Paulo rapidamente se alastrou . As reivindicações, porém, foram além da pauta econômica imediata. O transporte público, no Brasil, nunca foi apenas um serviço; é a única via de acesso à cidade para milhões de trabalhadores, dentre eles, alguns que prestam serviços de bombeiro hidráulico no Rio de Janeiro, que moram nas periferias. A precariedade do sistema, somada à violência policial que reprimia os protestos, escancarou as fraturas de uma sociedade que se sentia abandonada pelo poder público .
No discurso do poder público, os protestos também vêm sendo tratados como caso de polícia. E o assunto é sério, já que até mesmo um projeto de lei para tipificar o crime de terrorismo no Brasil está sendo estudado, incluindo brechas o suficiente para criminalizar de fato os movimentos sociais em seus atos públicos.
A repressão, no entanto, não se limitou aos projetos de lei. Em São Paulo, a Polícia Militar utilizou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar os manifestantes, resultando em feridos graves, como o fotógrafo que teve o olho atingido por um tiro de borracha, com chances de recuperação da visão estimadas em menos de 5% . A ação truculenta, longe de intimidar, serviu como combustível para as redes sociais, que se tornaram o principal canal de denúncia contra o excesso de força.
“Com a intenção de desmoralizar o movimento, logo dizem que a mobilização vem da classe média ou que existe um fundo político/partidário, o que não faz nenhum sentido. A reivindicação seria menos válida por partir de um certo grupo social? Mas, na verdade, o que vemos é uma movimentação espontânea, que não está vinculada a nenhum partido ou grupo específico. O povo foi para as ruas porque quis. O ato é político em si”, analisa a antropóloga Patrícia Lânes.
Para além do valor da passagem

O movimento, que começou focado no valor da tarifa, rapidamente abraçou outras causas, conectando a luta por transporte à luta por moradia, saúde, educação e contra a remoção de comunidades. A referência à Copa do Mundo e às obras do Maracanã, por exemplo, não foi aleatória. A reforma do estádio, feita para atender às exigências da FIFA, simbolizou um padrão de gastos públicos que privilegia megaeventos em detrimento das necessidades básicas da população.
“Privatizaram o nosso estádio, privatizaram o nosso direito de ir e vir… Agora, se a passagem não baixar, não vai ter Copa!”, gritavam os manifestantes . A frase ecoou o sentimento de que o cidadão comum estava sendo expulso dos espaços da cidade, tanto simbólica quanto financeiramente.
A resposta do poder público
A pressão popular surtiu efeito. O prefeito Fernando Haddad e o governador Geraldo Alckmin recuaram e reduziram a tarifa em São Paulo . Em âmbito federal, a então presidente Dilma Rousseff se reuniu com o MPL, que, insatisfeito com a falta de “pautas concretas”, afirmou que a luta não pararia . O MPL, à época, já sinalizava que a pauta final era mais ousada que a redução do valor: a luta pela tarifa zero, entendendo o transporte como um direito social fundamental, nos mesmos moldes da saúde e da educação .
“Esse movimento é mais um dos que podem ser caracterizados pela utilização das novas tecnologias. Agora, o Facebook e o Twitter são ferramentas não só de mobilização, mas também de criação de novas narrativas, desafiando a grande mídia”, analisa Marina Ribeiro, pesquisadora do Ibase.
O que ficou de 2013 foi a certeza de que o povo, quando se sente lesado em seus direitos mais básicos, irá para a rua. Os vinte centavos foram apenas a fagulha que incendiou um debate que, até hoje, segue em aberto: a quem serve a cidade e quem tem o direito de usufruir dela?